quinta-feira, janeiro 24, 2008

O poder da língua

Adaptado de “A Raposa e as uvas”, peça teatral de Guilherme de Figueredo, feita por Pedro Bandeira. Publicado no Jornal Alto Madeira de 30/06/2006.



Há mais de dois mil anos, um rico mercador grego tinha um escravo chamado Esopo. Um escravo corcunda, feio, mas de sabedoria única no mundo. Certa vez, para provar as qualidades de seu escravo, o mercador ordenou:

- Toma, Esopo. Aqui está este saco de moedas. Corre no mercado. Compra lá o que houver de melhor para um banquete. A melhor comida do mundo!

Pouco tempo depois Esopo voltou do mercado e colocou sobre a mesa um prato coberto por fino linho. O mercador levantou o paninho e ficou surpreso:

Ah! Língua? Nada como a boa língua que os pastores gregos saber tão bem preparar. Mas por que escolheste exatamente a língua como a melhor comida do mundo?

O escravo, de olhos baixos, explicou sua escolha:

- O que há de melhor do que a língua, senhor? A língua é que nos une a todos, quando falamos. Sem a língua não poderíamos nos entender. A língua é que se constroem as cidades, graças à língua podemos dizer o nosso amor. A língua é o órgão do carinho, da ternura, da compreensão. É a língua que torna eterno os versos dos grandes poetas, a idéia dos grandes escritores. Com a língua se ensina, se persuade, se instrui, se reza, se explica, se encanta, se descreve, se elogia, se demonstra, se afirma. Com a língua dizemos “mãe” e “querida” e “Deus”. Com a língua dizemos “sim”. Com a língua “eu te amo”! O que pode haver melhor do que a língua, senhor?

O mercador levantou-se, entusiasmado:

- Muito bem Esopo! Realmente tu me trouxeste o que há de melhor. Toma agora esta outra sacola de moedas. Vai de novo ao mercado e traze o que houver de pior, pois quero ver a tua sabedoria.

Mais uma vez, depois de algum tempo, o escravo Esopo voltou do mercado trazendo um prato coberto por um pano. O mercador recebeu-o com um sorriso:

- Hum... já sei o que há de melhor. Vejamos agora o que há de pior...

O mercador descobriu o prato e ficou indignado:

- O quê? Língua? Língua outra vez? Língua? Não disseste que a língua era o que havia de melhor? Queres se açoitado?

- A língua, senhor, é o que há de pior no mundo. E a fonte de todas a intrigas, o início de todos os processos, a mãe de todas as discussões. É a língua que separa a humanidade, que divide os povos. É a língua que usa os maus políticos quando querem nos enganar com suas falsas promessas. É a língua, que usam os vigaristas quando querem trapacear. A língua é o órgão da mentira, da discórdia, dos desentendimentos, das guerras, da exploração. É a língua que mente, que esconde, que engana, que explora, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que mendiga, que xinga, que bajula, que destrói, que calunia, que vende, que seduz, que corrompe. Com a língua dizemos “morre” e “canalha” e “demônio”. Com a língua dizemos “não”! Com a língua dizemos “eu te odeio”! Aí está senhor, porque a língua é a pior e a melhor de todas as coisas.

Fonte: http://www.mudarparavivermelhor.com.br/imprimir.asp?noticia_no=261